Tantra

Aspectos Gerais da Cultura Hindu

(Texto e pesquisa pelo Mestre Arnaldo de Almeida)

Hinduism

O Hinduísmo se constitui em uma das maiores riquezas culturais da humanidade. Ele se concretizou, ao longo  dos séculos, de forma muito vasta e prolixa. São muitos os elementos que fundamentam seus costumes, sua arte e suas tradições. Falar dessa cultura é algo muito complexo, até porque o subcontinente indiano existe enquanto ambiente humano há milhares de anos.

“Os primeiros testemunhos da presença humana na Índia remontam à era paleolítica e consistem em lascas de pedra lavrada, encontradas ao longo do curso do rio Soam, um pequeno afluente do Indo e produzidas, provavelmente por populações procedentes da Ásia centro-oriental, que desceram rumo ao norte do subcontinente indiano drante o segundo Período interglacial, ou seja, entre 400.000 e 200.000 anos atrás (…) Durante a era mesolítica, 30.000 anos antes de nossa era, chegou à Índia uma segunda avalancha migratória (…) A transição do nomadismo para a vida sedentária (…) parece ter se desenvolvido na Índia depois de 6.000 a. C. (…). (ALBANESE, M. Índia Antiga. Barcelona: Folio, 2004. P. 16. (Série Grandes Civilizações do Passado).

 

É muito polêmico falar do Hinduísmo, principalmente no que se refere ao passado, pois todos os relatos estão impregnados de visões mitológicas. Algo comum, na história da Índia, é sua tendência em tornar tudo mito. De qualquer forma, as raízes de toda essa cultura iniciaram-se cerca de quinze mil anos atrás. Segundo alguns historiadores, pesquisadores e estudiosos, no passado remoto da Índia, floresceu uma sociedade denominada de drávida ou dravidiana. Seus territórios estendiam-se por regiões que hoje fazem parte do Paquistão e grande parte da Índia. Essa cultura se constituiu em uma civilização centrada em um desenvolvimento com base no comércio, na agricultura e voltada para processos terapêuticos de autoconhecimento, com cultos devocionais direcionados às forças da Natureza. Esta, a Natureza, era considerada como espiritual. Analisando artefatos da antiga civilização do Vale do Indo, Albanese afirma que sacralizar a vida e o mundo era um traço marcante da antiga cultura hindu dravídica:

A sacralidade da natureza parece corroborada numa figura de semblante feminino cujo corpo produz uma árvore. (ALBANESE, M. Índia Antiga. Barcelona: Folio, 2004. p. 21). (Série Grandes Civilizações do Passado)

 

A civilização drávida se fortaleceu através de um sistema sócio-político-cultural matriarcal e democrático, diferentemente da maioria das outras civilizações, estas sempre baseadas em um sistema patriarcal ou totalitário. Nascidos de uma visão matriarcal da existência, os mitos dessa sociedade não seriam figuras ligadas à violência ou à guerra, o mito principal era a Grande Mãe representando a mãe natureza fértil e amorosa:

A Grande Deusa, senhora da vida e da morte, deve ter desempenhado papel fundamental no panorama religioso de uma civilização sedentária e agrícola como a do Vale do Indo. (…) o culto à Grande Deusa deve ter sido uma marca característica da religiosidade da civilização do
Vale do Indo e entre outras obras achadas (…) destacam-se imagens femininas de grandes seios e umbigo acentuado que remetem à maternidade e à fertilidade  (…) (
ALBANESE, M. Índia Antiga. Barcelona: Folio, 2004. p. 16 e 21). (Série Grandes Civilizações do Passado).

 

Nessa civilização, a mulher era o centro e a provedora da vida e, como tal, era um ser privilegiado e respeitado, assim como a natureza, que era vista como contendo em si toda a potencialidade cósmica de sabedoria e poder e, também, como uma mantenedora de vida e de ensinamentos.

 

Essa civilização dravidiana prosperou muito, teve seu apogeu, enriqueceu e não se sabe por que abandonou o Vale do Indo e se dispersou por várias regiões da Índia. Atualmente a ciência da Arqueologia e da História vem estudando essa civilização através das escavações nas cidades de Mohenjo Dharo e Harappa, entre outras, assim como os estudiosos e praticantes de yoga vêm dedicando variados estudos sobre essa civilização e estes últimos revivendo muitas de suas vivências e conhecimentos.

Para o Sistema Shivam Yoga, a marca principal da civilização drávida era sua busca do autoconhecimento, do desenvolvimento interior e do desabrochar dos poderes internos do ser humano.

 

CIVILIZAÇÃO DRAVIDIANA

Segundo alguns historiadores, a civilização dos povos dravidianos, geograficamente, estendia-se do Mediterrâneo à Ásia menor e concentrou-se fortemente na região do Vale do Indo, abrangendo hoje região do Paquistão e da Índia. A Arqueologia tem prestado um inestimável serviço aos pesquisadores e estudiosos do Yoga e das filosofias da Índia Antiga. Através da descoberta de tesouros arqueológicos encontrados nas cidades anteriormente soterradas de Mohenjo Dharo e Harappa, pode-se, atualmente, demonstrar a existência de uma civilização ímpar no referido Vale. De acordo com alguns estudos, esses povos não eram nômades e viveram em um processo de sedimentação sócio-econômica em cidades e aldeias, cujo eixo econômico dava-se a partir do comércio e da produção agrícola. A agricultura, então muito desenvolvida, servia de suporte para o crescimento das cidades. Estas comercializavam os produtos para outros centros, além de também produzirem tecnologia e arte, que também produziam riqueza para essas cidades e aldeias. Tais tecnologias e arte também eram comercializadas para fora. De alguma forma, havia, no bojo dessa civilização, uma busca de progresso, porém feito de forma mais integrada com o meio.

A análise das ruínas das cidades do Vale do Indo leva a inúmeras hipóteses e a algumas conclusões. As cidades possuíam um lugar especial, sempre sendo um lugar central e mais elevado, como uma grande praça, onde a população se reunia. Há uma certa homogeneidade nas construções, além de haver também um processo de não segregação entre pessoas com mais posses e outras de posses mais reduzidas. Havia diferenciações de poder financeiro, mas as casas mais ricas convivem com certa harmonia com outras não tão ricas, sugerindo que havia um certo processo de integração entre as camadas sociais distintas. As construções encontradas mostram que a população vivia razoavelmente bem e com certo conforto. As ruas, apesar de largas, eram de terra, o que se presume que a cidade enfrentava problemas com a poeira e, talvez por isso, as casas fossem construídas de costas para a rua. Tais residências eram construídas muito próximas uma das outras (costume ainda muito presente na Índia de hoje).  Há uma drenagem das águas para uso em relação às águas já utilizadas. Então há uma higiene urbana (saneamento). “As águas servidas escoam livremente, porque a inclinação, bem calculada, evita que voltem. Sem estagnação não há odores – e estamos na pré-história.” (LYSEBETH, A. Van. Tantra – o culto da feminilidade. São Paulo: Summus, 1994. p.16). Nos túmulos, foram encontradas ossadas de diversas raças, de pessoas que se agregaram e viveram em união sendo de raças diferentes, comprovando não haver racismo. “O racismo é desconhecido: nos túmulos, foram encontrados esqueletos de raças diferentes lado a lado, provando que havia casamentos mistos.” (LYSEBETH, A. Van. Tantra – o culto da feminilidade. São Paulo: Summus, 1994. p. 16). Nenhum grande templo, nenhum grande palácio, mas, sim, grandes construções de banhos, afinal eram povos que adoravam Kriyas, purificações, e eram povos criadores das terapias naturais e das filosofias espiritualistas. Todas as casas tinham um local especial e central, o qual era o centro da construção e onde se faziam os Pujas. Esses povos tinham como alvo de seus Pujas a Grande Mãe Natureza ou Grande Mãe Cósmica, que representava a força do feminino. Daí advém a vivência matriarcal e a mulher sendo colocada no centro da sociedade, uma vez que ela é o ser privilegiado, aquele que está mais próximo dessa Grande Mãe. Por tudo isso, acredita-se que tais cidades não eram governadas por algum governo tirânico e centralizador, levando-se a concluir que o sistema de governo era – de alguma forma -democrático. Dessa forma, os historiadores acreditam que essas cidades foram governadas por segmentos da população e não por um Grande Guerreiro ou Imperador ou um Sumo-Sacerdote. A não existência de um grande templo não significa, porém, que essa sociedade não era espiritualista. Todas as descobertas levam a crer na existência de Pujas à Deusa-Mãe, sendo feitos em lugares especiais no centro das casas, assim como para Shiva. Também foram encontrados por toda parte Lingas (Pujas à fertilidade masculina) e estátuas de Shiva, muitas das vezes em posições do yoga.

Para nós, tântricos e do Sistema Shivam Yoga, Shiva foi um Maha Yogue Rishi, um Mestre que atingiu o Samadhi e se tornou um Yogue iluminado, tendo sido aquele que intuiu e criou o Yoga Tântrico, sendo o Grande Patrono do Sistema Shivam Yoga (Shivam Yoga – Yoga de Shiva).

Alimentação no Tantra

O Tantra juntamente com a filosofia do Samkhya se constituem nas duas correntes de pensamento mais antigas da humanidade. Ambas surgiram com os povos dravidianos, habitantes do Vale do Indo (Índia Antiga), cerca de 15.000 anos atrás. Esses povos desenvolveram uma cultura muito adiantada nas cidades de Mohenjo Dharo e Harapa, entre outras. Eram povos matriarcais, não militaristas e, em geral, vegetarianos. Viam a natureza como espiritual e o ser humano, como parte integrante dessa natureza.

O Tantra nasceu como forma de despertar a consciência do ser humano para o seu comportamento, para as suas ações no mundo e para as suas responsabilidades para consigo mesmo e para com o mundo exterior. A filosofia do Tantra, que literalmente significa teia ou tratado, ou, ainda, coleção de livros, possui todo um arcabouço teórico-filosófico de direcionamentos para o dia-a-dia do ser humano, inclusive sobre sua alimentação, procurando desenvolver nos discípulos (Sadhakas) a consciência de seus poderes latentes e de como utilizá-los para a sua felicidade e bem-estar, incluindo a consciência alimentar.

Segundo o Tantra, o Universo é poder. Tudo está impregnado de poder. O ser humano, por sua vez, é um ser muito poderoso, mas que, muitas das vezes, por viver em estado de Avidya (ignorância), não utiliza desses poderes e, ainda pior, muitas das vezes, usa-os de forma errada ou egoísta, dominado pelo Guna Tamas.

Com o objetivo de despertar a consciência do Sadhaka, o Tantra prescreve muitas formas para que o discípulo adquira consciência e desenvolva seus poderes e os utilize, não só para o seu crescimento, mas também para o crescimento da humanidade. No Tantrismo, há toda uma busca de levar o Sadhaka para uma maior consciência alimentar. Assim, o Tantra prescreve para o Sadhaka uma alimentação natural (ovolactovegetariana e – idealmente -, vegetariana), através de estudos e da prática do Anna Yoga (Yoga da Alimentação), o que lhe trará saúde e felicidade, preceitos básicos também presentes no Ayurveda.

A Exploração Animal no Mundo “Moderno”

Percebe-se, com relação à alimentação, que muitos caminhos foram traçados pelas sociedades ao longo dos tempos, hoje prevalecendo a forma carniceira de se alimentar. No Ocidente, essa forma é agravada pelos princípios capitalistas do lucro.
Saúde, no Ocidente, é um termo que, quando é pensado, é pensado e vivenciado de uma forma egoísta, sem nenhuma reflexão mais consciente, e, por isso, ações são levadas adiante sem se estabelecer nenhuma relação amorosa com a Natureza e com os animais. Em função de uma imensa demanda por alimentos – desenfreada e sem a mínima consciência – arquiteta-se um famigerado comércio ligado à indústria alimentar e, em função das doenças que surgem pela alimentação errada, constrói-se, também, outro inescrupuloso comércio, este agora voltado para o combate a essas doenças, ou seja, fortalece-se dia-a- dia a “indústria da saúde”.

Exemplos de Líderes Conscientes da Exploração Animal

 

Albert Einstein

“É auspicioso e colabora com a paz quando as pessoas escolhem se tornarem vegetarianas.”  

Leonardo da Vinci

“Números incontáveis de animais terão seus filhos arrancados deles, rasgados e barbaramente trucidados para servirem como carne aos homens.” 

Mahatma Gandhi

“Sinto que o progresso espiritual requer, em uma determinada etapa, que paremos de matar nossos companheiros, os animais, para satisfação de nossos desejos corpóreos”.

“A grandeza de uma nação e seu progresso moral podem ser avaliados pelo modo como seus animais são tratados”.

 

Gautama Buda

“Pelo receio de causar dor e terror às criaturas viventes … deixe seu Buda interno despertar em si a compaixão para que você não faça o uso de carne na sua alimentação.”

São João Chrysoston

“Nós, os líderes cristãos, praticamos a abstinência de carne para termos domínio sobre nosso corpo … comer carne é algo antinatural e poluidor”. (ROSEN, S. Diet for Transcendence. Delhi: New Age Books, 2005. p. 22)

Henry Thoreau 

“Não tenho dúvida de que a suspensão do consumo de animais faz parte integrante do destino da raça humana em seu aperfeiçoamento gradual.”

Adam Smith

 

“Pode-se, de fato, pôr em dúvida se a carne dos açougues é necessária a vida. Grãos e outros legumes, juntamente com o leite, queijo e manteiga propiciam a dieta mais saudável, nutritiva e revigorante.” (A Riqueza das Nações) 

Krshina

“Todos que participam do negócio: Aqueles que apóiam ou se acumpliciam, aqueles que matam, aqueles que destrincham, aqueles que vendem, aqueles que preparam, aqueles que oferecem, aqueles que comem … todos são assassinos.”

 

Swami Prabhupada

“Os animais são mantidos vivos e engordados através da administração contínua de tranquilizantes, hormônios, antibióticos e 2.700 outras drogas.”(NULL, Steven. Poison in your body. In: Prabhupada, A. C. B. S. Gosto Superior. São Paulo: Trust, 2000.
“A cada ano matam-se 134 milhões de mamíferos e 3 bilhões de aves para alimento nos EUA. Mas poucas pessoas fazem qualquer ligação consciente entre essa matança  e os produtos cárneos que aparecem em suas mesas”. (O Gosto Superior)

A Realidade Brasileira

 

É muito triste ver a forma como a indústria capitalista se utiliza dos animais, com a complacência de todos (exceto por uma minoria de vegetarianos pelo mundo). Essas memórias e essas últimas citações apontam para a forma de desenvolvimento no setor pecuário e agrícola que se instituiu no Brasil.

A “modernização” capitalista contaminou as mentes dirigentes do país desde a década de 60 e o país vem caminhando a passos largos para ser o celeiro do mundo, mas para isso todas as reservas naturais estão sendo destruídas e contaminadas. A falta de escrúpulos contamina todos, sejam produtores, sejam atravessadores, sejam consumidores.

O país se torna moderno, as populações rurais migram para os grandes centros, vivendo perifericamente (em relação a tudo) nas megalópoles, a área rural se torna industrial, não mais possuindo agricultores, mas trabalhadores-operários que vivem miseravelmente nas cidades.

Eles se deslocam para o campo para trabalhar, o pequeno agricultor não mais existe, o que existem são as multinacionais produtoras de alimentos (vegetais e animais), muitos transgênicos, e a agricultura natural é apenas um eco de um passado distante, arcaico e atrasado, existindo apenas como um fantasma presente no inconsciente do brasileiro de meia idade e esse fantasma, como tal, deve ser esquecido, pois representa o que de mais atrasado existe.

Tragicamente, esse é o enredo que se desenvolve no Brasil de hoje. E o mesmo se pode dizer do mundo.

O Papel dos Shivam Yoguins & Yoguines

O Sistema Shivam Yoga é uma escola que se torna um guardiã da sabedoria do Tantra e, como tal, vem, gradativamente, buscando dar consciência alimentar, individual, social e política para os seus integrantes, visando a promover uma real transformação das pessoas que entram em contato com o Sistema, retirando-as dos processos educacionais alienantes a que são submetidas.
Aqueles que trabalham com as técnicas do Sistema Shivam Yoga, por ter sua consciência desperta, terão a seu dispor as ferramentas ideais para fazer um trabalho de transmitir para as pessoas em geral e, principalmente, para seus alunos, a necessidade de mudarem seus hábitos alimentares.
Poderá, com seus conhecimentos, vivências e experiências, orientar a alimentação dessas pessoas que lhes procuram, ensinando-lhes como escolher seus alimentos, como prepará-los e como ingeri-los. Ao agir dessa forma estará inclusive criando um Karma positivo para si mesmo e estará certamente cumprindo com seu Dharma (seu dever) como iniciado na Senda. Primeiramente, porém, deve já vivenciar em seu dia a dia esse Dharma como missão e dever de forma natural.

As Vertentes do Tantra : Yoga Erótico

O Tantra nasceu na Índia Antiga junto às comunidades rurais e às pequenas aldeias e, desses grupos, se expandiu para os grandes centros e, muito posteriormente, se consolidou junto aos variados grupos da sociedade hinduísta.

 

Sua natureza é rural, tendo seus princípios completamente fundamentados em uma visão de mundo estabelecida a partir da relação que essas populações estabeleciam com a Grande Mãe Natureza: por isso a sacralização dos rios, lagos (água como elemento vital para a sobrevivência e enriquecimento desses povos), montanhas e astros celestiais (Sol, Lua, estrelas… – a astrologia ainda é essencial aos hindus), plantas e árvores.

 

Mahadevi – a grande mãe – com seios enormes seria a representação básica desses povos:

 

A Grande Deusa, senhora da vida e da morte, deve ter desempenhado papel fundamental no panorama religioso de uma civilização sedentária e agrícola como a do Vale do Indo. (…) o culto à Grande Deusa deve ter sido uma marca característica da religiosidade da civilização do

Vale do Indo e entre outras obras achadas (…) destacam-se imagens femininas de grandes seios e umbigo acentuado que remetem à maternidade e à fertilidade  (…) (ALBANESE, M. Índia Antiga. Barcelona: Folio, 2004. p. 16 e 21). (Série Grandes Civilizações do Passado).

A civilização antiga da Índia foi denominada pelos historiadores de drávida e os dravidianos se fortaleceram através de um sistema sócio-político-cultural matriarcal e democrático, diferentemente da maioria das outras civilizações, estas sempre baseadas em um sistema patriarcal ou totalitário.

Nascidos de uma visão matriarcal da existência, os mitos dessa sociedade não seriam figuras ligadas à violência ou à guerra, o mito principal era a Grande Mãe representando a mãe natureza fértil e amorosa.

Essa é a raiz básica do Tantra: relação direta e intensa com as forças vitais presentes no mundo natural e uma visão sensível e amorosa do mundo, pelo seu cunho essencialmente matriarcal dessa civilização.Assim, em função dessa relação, foi surgindo inúmeros Sadhus (homens e mulheres – Maha Yogues meditativos), que foram intuindo variadas formas de integração com os elementos e forças naturais: a respiração profunda e consciente, a meditação e as variadas técnicas de purificação, integração e união foram se consolidando, frutificando, posteriormente, no Yoga e nas variadas técnicas de massagem e de limpeza energética, ativação dos Chakras e das Nadis.

Bom lembrar aqui de que o vocábulo “Yoga” é constituído do radical “Yuj”, o qual significa união e a massagem tem um componente forte do toque, que propicia um processo de interação e harmonia e união (tato e contato).

Os criadores de escolas de Yoga – hindus e dravidianos – foram instituindo métodos que foram se cristalizando nas variadas ferramentas que levavam o Sadhaka a se integrar consigo e a perceber o fluxo de consciência e sabedoria cósmico, com o qual, através de seus Sadhanas tântricos, poderiam se sintonizar e nele mergulhar.

Já os fundadores de escolas de Massagem – também hindus e dravidianos – foram criando determinadas técnicas, para que esse processo do “toque” fosse se consolidando século após século, surgindo, no bojo dessas buscas, a cultura terapêutica do Ayurveda.

Em ambas as escolas (muitas das vezes elas estavam unidas) foram sendo delineados os princípios morais, denominados de Yamas e de Niyamas, os quais não se constituíam em princípios restritivos, mas em princípios de orientação e de aconselhamento.

No entanto, com o passar dos séculos, esses princípios foram sendo interpretados de variadas formas e passou-se a se entender o Tantra como apenas uma escola filosófica voltada para uma liberdade sem restrições, entendendo-se os Yamas e Niyamas como sendo princípios restritivos e, dessa forma, princípios não tântricos.

Criou-se, assim, o Tantra conhecido como de linha da esquerda, ou Tantra da mão negra, o Vamah Tantra, o qual se oporia ao Tantra da linha da direita e de mão branca, o Dakshnah Tantra. O Tantra da linha da esquerda teria princípios autenticamente tântricos: o da total liberdade.

A sexualidade deveria ser vivenciada sem qualquer princípio restritivo, culminando no Yoga erótico, hoje com variadas nomenclaturas, tais como Kundalini Tantra Yoga, Yoga de Parceiros, Yoga do Amor, etc., e na massagem “sexual”, denominada de “Massagem Tântrica”, “Massagem do Amor”, “Massagem de Parceiros”, “Maithuna Massagem”, “Toque Divino Tântrico”, “Kundalini Massagem”, etc.

O Tantra da esquerda se fundamentou em três pilares: comer carnes, beber álcool e fazer sexo sem nenhuma limitação, opondo-se dessa forma, concretamente, ao Ahimsa (prática da não-violência), ao Saucha (prática de purificações) e ao Brahmacharya (prática da energia sexual com consciência) e, ainda, sustentando a ideia de que o Tantra não teria qualquer concepção espiritualista.

No entanto, alguns processos podem ser contestados no que diz respeito a esses pilares daqueles que se autoproclamam Vamahtantracharya (seguidores do Tantra de esquerda). Ao se sustentar a ideia de que a restrição alimentar, como o não comer carnes, estaria ligada ao princípio Ahimsa e, portanto, seria algo restritivo e não tântrico, esbarra-se em uma contradição fundamental.

O raciocínio é o seguinte: o Tantra é liberdade, então, não faz sentido restringir opções alimentares.

Dessa forma, comer carnes seria uma atitude tântrica. No entanto, se o princípio é o da liberdade e, assim, comer carnes seria algo natural, então, por que só comer carnes de alguns animais e não se comer carne do animal humano?

Dessa forma, a liberdade não é total, há restrição: pode-se comer carnes, desde que esta não seja humana. Essa atitude, porém, cai em uma cilada: o especismo (acreditar que o ser humano é um animal superior aos outros) e o Tantra – de esquerda ou de direita – não seria especista.

Outra contradição: o Tantra buscaria o Samadhi via desintoxicação, para ativação dos Chakras, das Nadis e para a ascensão da energia Kundalini. Mas e o álcool? Seria um elemento purificador? Beber álcool contrapõe-se – sim – ao Niyama Saucha, mas obstruem-se as redes energéticas e isto não é uma atitude tântrica.

O Yoga erótico e a massagem sexual culminariam no ato sexual, pois a liberdade tem de ser exercida. No entanto, cabe-se indagar: “qual o objetivo dessa proposta: prazer pelo prazer, gozo pelo gozo, busca do Samadhi?”

A prática desse Yoga e dessa massagem pode levar a certos desbloqueios, sim, mas se o que se busca, primordialmente, é o Samadhi, então quais os compromissos assumidos para que esse estado se realize?

Ainda, nova contradição: fazer sexo sem nenhuma restrição. Bem e quanto a lei do Karma? A concepção de outro ser, como fica? Caso se evitar a fecundação, está-se em um processo restritivo. Então, não há liberdade total. Há restrições e restrições não fazem parte do Tantra Vamah (de esquerda).

Quanto a se pensar que o Tantra não tenha princípios espiritualista, então, não faz sentido agir de forma natural, pois a busca de se ser natural é caminhar em sintonia com o fluxo dhármico de harmonia, algo em comunhão com o princípio fundamental que norteia o Universo: Purusha – a força espiritual.

Qual o processo natural do Yoga erótico e da massagem sexual?

O Vamah Tantra pode se opor veementemente ao que ele denomina de Tantra da mão branca ou da direita – o Dakshnah Tantra, mas não consegue fugir de contradições em suas posições, que, na verdade, apenas se baseiam em fazer oposições e não em ser moral, e ser moral faz parte de todo indivíduo que busca ser consciente, alerta e desperto, princípios básicos do Tantra antigo da Índia.

Por tudo isto, pode-se concluir que o Vamah Tantra se desmorona em suas próprias bases, se constituindo apenas em uma forma de contestação anárquica, de prazer pelo prazer, do gozo pelo gozo, sem nenhuma relação com princípios éticos, responsáveis e conscientes.

 

Dessa forma, não se constitui em uma escola concretamente moral e norteadora de uma ação no mundo consciente e construtiva. No que diz respeito à prática do Yoga erótico e da massagem sexual, ela tem demonstrado ser apenas uma fórmula de escape de impulsos sexuais, sem uma ligação com  o caminhar de um processo de Vida Yogue.

O Tantra, na sua essência, não é nem Dakshnah e nem Vamah, o Tantra é uma filosofia comportamental, moral, espiritualista, amorosa, não-violenta (matar animais é uma violência), é uma filosofia nascida no bojo do matriarcalismo, onde impera a sensibilidade, a afetividade e o amor.

Admirar, agradecer, doar, reverenciar e respeitar: Tantrismo. Agora, fazer sexo sem nenhuma consciência, comer carnes, sem qualquer ética, beber álcool pelo gozo que seus efeitos propiciam, isto pode ser denominado de qualquer coisa, menos de caminhos tântricos.

Quanto às linhagens de Sadhus Vamahcharyatantrik, mesmo que sejam de escolas antigas, essas escolas caminharam em um sentido outro que não o do Tantra tradicional, pois, ao afirmar que o “divino” está presente em tudo e em todos as ações e que, por isso, o ato de comer carnes, beber álcool e fazer sexo sem restrições seria algo sagrado, está-se fugindo da segunda parte do corolário tântrico: “você é livre para agir da forma que quiser, mas você não é livre para fugir das consequências de suas ações”.

 

Para nós, essa segunda parte é que é a fonte das linhagens Vamahtantrik e é aí que o erro é cometido, que a interpretação é contaminada, contaminada por um pensamento do ser humano comum, ou seja, o de se agir de forma inconsequente, sem consciência e isto não é Tantrismo.Buscando a ampliação de nossa consciência, o Sistema Shivam Yoga – seu Mestre e seus discípulos – se regojizam em estar no caminho do que entendemos ser o Tantra e sua raiz: feminina, amorosa e espiritual. “Qual a nossa linhagem? Resposta: Tantrismo Tradicional Indiano e ponto final.

O Tantra : Aspectos Gerais

O Tantra teve seu desenvolvimento juntamente com o fortalecimento da sociedade dravidiana do Vale do Indo. Foram os Maha Yogues Rishis de Mahabharata que intuíram as variadas formas de se estabelecerem contatos com os poderes da Natureza e esses contatos foram sendo codificados e estruturados com o nome de Tantrismo. Um desses aspectos foi denominado de Shaivismo.

Essa corrente de prática e de pensamento denominada de Shaivismo é, na verdade, um aspecto geral do Tantra, principalmente daquele aspecto voltado para o diálogo de Shiva com sua “consorte” Shakti. Costuma-se, também, pensar mesmo que o Tantrismo é um aspecto derivado do Shaivismo.

Em um sentido específico, pode-se pensar o Shaivismo como sendo uma escola com um arcabouço teórico-filosófico, que é apresentado sempre através do diálogo estabelecido entre Shiva e Shakti, apresentando, ainda, práticas, rituais e tradições milenares sempre estruturados no diálogo entre Shiva e sua consorte “mística” Shakti, geralmente denominada de Durga ou de Kali.

Para o Hinduísmo, o Shaivismo (o Tantra) é uma escola filosófica à parte, não sendo, então, considerada uma escola ortodoxa, pois seus corolários muitas das vezes não seguem a tradição dos Vedas.

Dessa forma, os próprios tântricos e mesmo a cultura hindu acabaram por aceitar a tradição do Tantra como sendo uma escola filosófica à parte e que é considerada como o quinto Veda.

 

Por que o Tantra geralmente tem Conotação Negativa?

O Tantra, porém, apesar de imensamente presente na Índia, através de sua inserção nos cultos devocionais do Vedanta (Pujas, por exemplo), não é muito bem-visto pelos eruditos Brahmanes e pelos estudiosos e seguidores da escola filosófica do Vedanta, sendo sempre visto com uma conotação negativa, muitas das vezes ligadas a ideias de magia, ocultismo, superstição, de rituais sangrentos e de “depravação” sexual (rito Maithuna visto de forma preconceituosa, assim como a ideia de liberdade comportamental contida no Tantrismo).

A palavra Tantra (e entendendo-se Tantra como Shaivismo) significa uma “teia”, uma “urdidura”, significando, também, “série de rituais”, série de iniciações”, “série contínua”, “série de ensinamentos”. Literalmente a palavra “Tantra”, que é uma palavra da língua sânscrita, é constituída de duas partes – “Tan”, que significa “crescer” ou “desenvolver” e do sufixo “Tra”, que significa “instrumento” ou “ferramenta”.

Literalmente poder-se-ia definir “Tantra” como sendo “ferramenta ou instrumento para o crescimento ou para o desenvolvimento”, no caso, desenvolvimento do Sadhaka ou do Vira e, no nosso caso, do Shivamyoguim ou da Shivamyoguine.

O sufixo “Tra” está também presente em outras palavras importantes para o Yoga Tântrico: está presente, por exemplo, na palavra “Yantra” (“Yan” – algo ligado à forma e “Tra” – instrumento ou ferramenta – assim literalmente Yantra seria “ferramenta ou instrumento para se entender a forma) e na palavra “Mantra” (“Man” – algo ligado a pensador, a pensamento e “Tra” – ferramenta ou instrumento – literalmente “ferramenta ou instrumento para se dominar o pensamento ou o pensador”).

Na verdade, a palavra “tantrismo” é uma criação ocidental e não corresponde à verdadeira noção de do termo “Tantriki”, que, na Índia, significa qualquer ritual que se diferencia, pelos detalhes nele presentes, dos rituais contidos nos Vedas.

O Tantra sempre foi olhado com certo distanciamento pelos compiladores dos Vedas, os quais, na sua quase totalidade, eram de formação da escola Vedanta e, portanto, faziam muitas restrições às ideias contidas nos tratados ou nas práticas tântricas dravidianas. Essas práticas, porém, estão presentes nos Vedas, pois todos os Pujas com seus rituais se originaram no Tantrismo; Dhyana, Mantras, Mudras, uso dos elementos da Natureza, etc.