Aspectos Gerais da Cultura Hindu

(Texto e pesquisa pelo Mestre Arnaldo de Almeida)

Hinduism

O Hinduísmo se constitui em uma das maiores riquezas culturais da humanidade. Ele se concretizou, ao longo  dos séculos, de forma muito vasta e prolixa. São muitos os elementos que fundamentam seus costumes, sua arte e suas tradições. Falar dessa cultura é algo muito complexo, até porque o subcontinente indiano existe enquanto ambiente humano há milhares de anos.

“Os primeiros testemunhos da presença humana na Índia remontam à era paleolítica e consistem em lascas de pedra lavrada, encontradas ao longo do curso do rio Soam, um pequeno afluente do Indo e produzidas, provavelmente por populações procedentes da Ásia centro-oriental, que desceram rumo ao norte do subcontinente indiano drante o segundo Período interglacial, ou seja, entre 400.000 e 200.000 anos atrás (…) Durante a era mesolítica, 30.000 anos antes de nossa era, chegou à Índia uma segunda avalancha migratória (…) A transição do nomadismo para a vida sedentária (…) parece ter se desenvolvido na Índia depois de 6.000 a. C. (…). (ALBANESE, M. Índia Antiga. Barcelona: Folio, 2004. P. 16. (Série Grandes Civilizações do Passado).

 

É muito polêmico falar do Hinduísmo, principalmente no que se refere ao passado, pois todos os relatos estão impregnados de visões mitológicas. Algo comum, na história da Índia, é sua tendência em tornar tudo mito. De qualquer forma, as raízes de toda essa cultura iniciaram-se cerca de quinze mil anos atrás. Segundo alguns historiadores, pesquisadores e estudiosos, no passado remoto da Índia, floresceu uma sociedade denominada de drávida ou dravidiana. Seus territórios estendiam-se por regiões que hoje fazem parte do Paquistão e grande parte da Índia. Essa cultura se constituiu em uma civilização centrada em um desenvolvimento com base no comércio, na agricultura e voltada para processos terapêuticos de autoconhecimento, com cultos devocionais direcionados às forças da Natureza. Esta, a Natureza, era considerada como espiritual. Analisando artefatos da antiga civilização do Vale do Indo, Albanese afirma que sacralizar a vida e o mundo era um traço marcante da antiga cultura hindu dravídica:

A sacralidade da natureza parece corroborada numa figura de semblante feminino cujo corpo produz uma árvore. (ALBANESE, M. Índia Antiga. Barcelona: Folio, 2004. p. 21). (Série Grandes Civilizações do Passado)

 

A civilização drávida se fortaleceu através de um sistema sócio-político-cultural matriarcal e democrático, diferentemente da maioria das outras civilizações, estas sempre baseadas em um sistema patriarcal ou totalitário. Nascidos de uma visão matriarcal da existência, os mitos dessa sociedade não seriam figuras ligadas à violência ou à guerra, o mito principal era a Grande Mãe representando a mãe natureza fértil e amorosa:

A Grande Deusa, senhora da vida e da morte, deve ter desempenhado papel fundamental no panorama religioso de uma civilização sedentária e agrícola como a do Vale do Indo. (…) o culto à Grande Deusa deve ter sido uma marca característica da religiosidade da civilização do
Vale do Indo e entre outras obras achadas (…) destacam-se imagens femininas de grandes seios e umbigo acentuado que remetem à maternidade e à fertilidade  (…) (
ALBANESE, M. Índia Antiga. Barcelona: Folio, 2004. p. 16 e 21). (Série Grandes Civilizações do Passado).

 

Nessa civilização, a mulher era o centro e a provedora da vida e, como tal, era um ser privilegiado e respeitado, assim como a natureza, que era vista como contendo em si toda a potencialidade cósmica de sabedoria e poder e, também, como uma mantenedora de vida e de ensinamentos.

 

Essa civilização dravidiana prosperou muito, teve seu apogeu, enriqueceu e não se sabe por que abandonou o Vale do Indo e se dispersou por várias regiões da Índia. Atualmente a ciência da Arqueologia e da História vem estudando essa civilização através das escavações nas cidades de Mohenjo Dharo e Harappa, entre outras, assim como os estudiosos e praticantes de yoga vêm dedicando variados estudos sobre essa civilização e estes últimos revivendo muitas de suas vivências e conhecimentos.

Para o Sistema Shivam Yoga, a marca principal da civilização drávida era sua busca do autoconhecimento, do desenvolvimento interior e do desabrochar dos poderes internos do ser humano.

 

CIVILIZAÇÃO DRAVIDIANA

Segundo alguns historiadores, a civilização dos povos dravidianos, geograficamente, estendia-se do Mediterrâneo à Ásia menor e concentrou-se fortemente na região do Vale do Indo, abrangendo hoje região do Paquistão e da Índia. A Arqueologia tem prestado um inestimável serviço aos pesquisadores e estudiosos do Yoga e das filosofias da Índia Antiga. Através da descoberta de tesouros arqueológicos encontrados nas cidades anteriormente soterradas de Mohenjo Dharo e Harappa, pode-se, atualmente, demonstrar a existência de uma civilização ímpar no referido Vale. De acordo com alguns estudos, esses povos não eram nômades e viveram em um processo de sedimentação sócio-econômica em cidades e aldeias, cujo eixo econômico dava-se a partir do comércio e da produção agrícola. A agricultura, então muito desenvolvida, servia de suporte para o crescimento das cidades. Estas comercializavam os produtos para outros centros, além de também produzirem tecnologia e arte, que também produziam riqueza para essas cidades e aldeias. Tais tecnologias e arte também eram comercializadas para fora. De alguma forma, havia, no bojo dessa civilização, uma busca de progresso, porém feito de forma mais integrada com o meio.

A análise das ruínas das cidades do Vale do Indo leva a inúmeras hipóteses e a algumas conclusões. As cidades possuíam um lugar especial, sempre sendo um lugar central e mais elevado, como uma grande praça, onde a população se reunia. Há uma certa homogeneidade nas construções, além de haver também um processo de não segregação entre pessoas com mais posses e outras de posses mais reduzidas. Havia diferenciações de poder financeiro, mas as casas mais ricas convivem com certa harmonia com outras não tão ricas, sugerindo que havia um certo processo de integração entre as camadas sociais distintas. As construções encontradas mostram que a população vivia razoavelmente bem e com certo conforto. As ruas, apesar de largas, eram de terra, o que se presume que a cidade enfrentava problemas com a poeira e, talvez por isso, as casas fossem construídas de costas para a rua. Tais residências eram construídas muito próximas uma das outras (costume ainda muito presente na Índia de hoje).  Há uma drenagem das águas para uso em relação às águas já utilizadas. Então há uma higiene urbana (saneamento). “As águas servidas escoam livremente, porque a inclinação, bem calculada, evita que voltem. Sem estagnação não há odores – e estamos na pré-história.” (LYSEBETH, A. Van. Tantra – o culto da feminilidade. São Paulo: Summus, 1994. p.16). Nos túmulos, foram encontradas ossadas de diversas raças, de pessoas que se agregaram e viveram em união sendo de raças diferentes, comprovando não haver racismo. “O racismo é desconhecido: nos túmulos, foram encontrados esqueletos de raças diferentes lado a lado, provando que havia casamentos mistos.” (LYSEBETH, A. Van. Tantra – o culto da feminilidade. São Paulo: Summus, 1994. p. 16). Nenhum grande templo, nenhum grande palácio, mas, sim, grandes construções de banhos, afinal eram povos que adoravam Kriyas, purificações, e eram povos criadores das terapias naturais e das filosofias espiritualistas. Todas as casas tinham um local especial e central, o qual era o centro da construção e onde se faziam os Pujas. Esses povos tinham como alvo de seus Pujas a Grande Mãe Natureza ou Grande Mãe Cósmica, que representava a força do feminino. Daí advém a vivência matriarcal e a mulher sendo colocada no centro da sociedade, uma vez que ela é o ser privilegiado, aquele que está mais próximo dessa Grande Mãe. Por tudo isso, acredita-se que tais cidades não eram governadas por algum governo tirânico e centralizador, levando-se a concluir que o sistema de governo era – de alguma forma -democrático. Dessa forma, os historiadores acreditam que essas cidades foram governadas por segmentos da população e não por um Grande Guerreiro ou Imperador ou um Sumo-Sacerdote. A não existência de um grande templo não significa, porém, que essa sociedade não era espiritualista. Todas as descobertas levam a crer na existência de Pujas à Deusa-Mãe, sendo feitos em lugares especiais no centro das casas, assim como para Shiva. Também foram encontrados por toda parte Lingas (Pujas à fertilidade masculina) e estátuas de Shiva, muitas das vezes em posições do yoga.

Para nós, tântricos e do Sistema Shivam Yoga, Shiva foi um Maha Yogue Rishi, um Mestre que atingiu o Samadhi e se tornou um Yogue iluminado, tendo sido aquele que intuiu e criou o Yoga Tântrico, sendo o Grande Patrono do Sistema Shivam Yoga (Shivam Yoga – Yoga de Shiva).

Posted on: 17 de janeiro de 2017, by : Pedro Azalim